Como Nasceu o Conceito de Proteína de Alta Qualidade

Durante muito tempo, proteína era só proteína. A história de como a ciência inventou uma régua para medir qualidade, e por que usa o termo com mais cuidado que o marketing.

“Proteína de alta qualidade” parece uma opinião de rótulo. É uma nota, com fórmula, adotada por escrito em 1991 numa reunião conjunta da FAO com a Organização Mundial da Saúde [1]. Antes disso a expressão não existia, não porque ninguém tivesse a intuição, mas porque não havia régua.

Duas siglas, e o que cada uma resolve

A primeira régua chamou-se PDCAAS, sigla inglesa para escore de aminoácidos corrigido pela digestibilidade da proteína. Ela combina duas perguntas numa nota só: a proteína traz os aminoácidos essenciais na proporção certa, e o corpo consegue digeri-la? [1]

Em 2013 a FAO propôs uma segunda, o DIAAS, escore de aminoácidos indispensáveis digestíveis [2]. A diferença entre as duas está na precisão da segunda pergunta:

  • PDCAAS. Olha a digestibilidade da proteína inteira, como se ela entrasse e saísse em bloco.
  • DIAAS. Acompanha cada aminoácido essencial separadamente, porque nem todos são absorvidos no mesmo ritmo.

Nenhuma das duas foi criada para eleger vencedor. Foram feitas para permitir comparação, coisa que até então dependia de impressão.

Durante muito tempo, proteína era apenas proteína

No começo da nutrição moderna a preocupação era outra: evitar a falta. A pergunta cabia numa linha. A alimentação fornece proteína suficiente? Pouco importava se ela vinha do leite, da carne, do ovo ou do feijão, porque o que se contava era o total.

A dúvida seguinte era inevitável. Se duas refeições entregam a mesma grama, elas atendem o organismo do mesmo jeito? Quando os aminoácidos de cada alimento foram sendo separados e contados, a resposta apareceu: algumas fontes trazem todos os essenciais em proporção adequada, outras vêm curtas em um ou dois. E o corpo não aproveita todas com a mesma eficiência.

Composição e digestibilidade passaram a ser lidas juntas. Foi aí que qualidade proteica deixou de ser impressão e virou conceito com unidade de medida.

Por que o whey se deu bem na nova régua

Quando as notas começaram a ser aplicadas, algumas proteínas apareceram bem no alto, e o whey estava entre elas. A combinação é a de sempre: digestão fácil, perfil completo de aminoácidos essenciais e leucina em concentração alta. Diante de outras fontes que fornecem a mesma quantidade de aminoácidos essenciais, é ele que mais estimula a síntese proteica [3].

Isso não rebaixa as outras. Significa que cada fonte tem características próprias, e que a partir de 1991 passou a existir um jeito de descrevê-las sem adjetivo.

Qualidade não é superioridade

Este é o ponto que o rótulo costuma atropelar. Nota alta descreve uma característica mensurável de uma proteína isolada, não decreta o melhor alimento para todas as pessoas em todas as situações.

Uma alimentação equilibrada combina origens diferentes, e as proteínas vegetais continuam cumprindo um papel central na mesa humana. Uma fonte curta em determinado aminoácido é facilmente completada por outra na mesma refeição. A régua existe para descrever, não para promover briga entre comidas. É por isso que a ciência usa a expressão com muito mais cuidado do que o marketing.

MétodoAnoO que mede
PDCAASFAO/OMS, 1991Perfil de aminoácidos + digestibilidade total
DIAASFAO, 2013Absorção individual de cada aminoácido essencial

O Que Isso Explica Hoje

Quando alguém lê que o whey é uma proteína de alta qualidade, a frase não vem de opinião: vem de uma régua que levou décadas para transformar digestibilidade, composição de aminoácidos e aproveitamento em número comparável.

Essa régua mudou a pergunta que se faz a um alimento. Deixou de ser quanta proteína ele contém e passou a ser o quanto essa proteína atende ao que o organismo precisa. São coisas diferentes, e a diferença cabe numa nota.

Foi o que consolidou o whey como referência em qualidade proteica, sem que isso signifique, em momento algum, que as outras fontes tenham deixado de importar. A régua não escolhe o que você come. Ela só permite comparar o que já estava na mesa.

Perguntas Frequentes

É uma proteína que fornece aminoácidos essenciais em quantidades adequadas e apresenta boa digestibilidade, permitindo que o organismo aproveite esses nutrientes de forma eficiente.

Sim. Diversos estudos o classificam como proteína de alta qualidade devido ao seu perfil de aminoácidos essenciais e à sua elevada digestibilidade.

É um método adotado pela FAO/OMS em 1991 para avaliar a qualidade das proteínas considerando o perfil de aminoácidos essenciais e a digestibilidade.

É um método mais recente, proposto pela FAO em 2013, que mede a digestibilidade individual de cada aminoácido essencial e vem sendo adotado em muitas pesquisas.

Não necessariamente. Muitas podem fazer parte de uma alimentação equilibrada. O conceito de qualidade descreve características nutricionais específicas e não determina, sozinho, o valor de um alimento dentro da dieta.

Referências Científicas

[1] FAO/WHO. (1991). Protein quality evaluation. Report of a Joint FAO/WHO Expert Consultation. FAO Food and Nutrition Paper 51. Roma: Food and Agriculture Organization.

[2] FAO. (2013). Dietary protein quality evaluation in human nutrition. Report of an FAO Expert Consultation. FAO Food and Nutrition Paper 92. Roma: Food and Agriculture Organization.

[3] Tang JE, Moore DR, Kujbida GW, Tarnopolsky MA, Phillips SM. (2009). Ingestion of whey hydrolysate, casein, or soy protein isolate: effects on mixed muscle protein synthesis at rest and following resistance exercise in young men. Journal of Applied Physiology, 107(3), 987-992. DOI: 10.1152/japplphysiol.00076.2009

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