Em abril de 2014, uma pergunta curta o bastante para caber num título apareceu numa revista europeia de ciência do esporte: onde estão todas as mulheres? Nas três revistas mais fortes da área, elas eram 39% de quem aparecia [3].
A pergunta do título deste texto costuma ser respondida com uma data de campanha publicitária. Não é ali que está a resposta documentada. O whey deixou de ser coisa de homem em dois movimentos diferentes, com dez anos entre um e outro, e só um deles já terminou.
Até 2018 a norma brasileira endereçava o whey a quem buscava desempenho máximo
A RDC nº 18, de 27 de abril de 2010, definiu atleta como praticante de exercício físico com especialização e desempenho máximos, com o objetivo de participar de esporte de esforço muscular intenso. A esse público ela endereçou toda a categoria de suplementos, o proteico incluído [1]. O texto não fala em homem nem em mulher. Fala em elite.
A precisão importa neste ponto, porque é aqui que a conversa costuma descarrilar. A norma de 2010 não excluiu mulheres: excluiu quase todo mundo. O whey era, legalmente, comida de um grupo pequeno de especialistas em desempenho. Quem não se reconhecia nessa descrição comprava um produto cujo texto legal falava de outra pessoa, e era a maior parte de quem treinava, de qualquer sexo.
A RDC nº 243, de 26 de julho de 2018, revogou aquela resolução e criou a categoria suplemento alimentar, destinada a complementar a alimentação, sem recorte de público [2]. Essa é a primeira data com documento: em julho de 2018 o whey deixou de ter destinatário legal, e com ele saiu a moldura de esporte de esforço muscular intenso que acompanhava o produto desde 2010.
Mulheres eram 39% de quem entrava na conta
O segundo movimento é mais lento e ainda está em curso. Nas três grandes revistas do esporte, as mulheres eram os tais 39%. Em cada texto, isoladamente, elas ficavam entre 35% e 37% [3].
Isso importa para quem toma whey por um motivo bem concreto. Três coisas saíram daí:
- Quanto. O tamanho da dose que circula como padrão.
- Quando. O momento de tomar em relação ao treino.
- O que esperar. A resposta que se atribui ao produto.
Quando uma orientação sobre dose de whey é descrita como consolidada, o que está consolidado é uma média. E, nessa média, os homens eram maioria por uma margem larga.
Dez anos depois elas eram quase 44%, e as perguntas continuaram as mesmas
Em 2025, as mulheres tinham subido para quase 44%, 43,95% no número cheio [4]. Texto a texto, elas passavam de 40%.
O mais revelador, porém, não é o percentual. É o que continuou de fora. O ciclo menstrual das mulheres que participavam entrou na conta em só 5,6% das vezes [4]. Incluir mulheres e tratá-las como um corpo sem ciclo são coisas diferentes, e a segunda ainda é a regra. É por isso que o segundo movimento não terminou: a proporção subiu cinco pontos em uma década, e a pergunta sobre em que fase do ciclo aquele corpo respondeu continua sem sair em 94 de cada 100 vezes.
O Que Isso Explica Hoje
Explica por que a conversa sobre whey para mulheres soa, alternadamente, como marketing e como suspeita. Os dois extremos têm o mesmo motivo: a regra que dizia para quem era o produto mudou de uma vez, em 2018, enquanto o conhecimento sobre como o produto se comporta muda devagar, e ainda não chegou à paridade.
Isso muda o jeito de ler um número. Uma recomendação de dose de whey não fica falsa por ter nascido de um público majoritariamente masculino. Ela é uma média com margem de incerteza maior do que costuma admitir quem a cita. Saber disso não desqualifica a orientação; desloca a pergunta certa da desconfiança para a especificidade: este número vale para o corpo de quem, e em quais condições?
E explica a assimetria que qualquer leitora percebe sozinha. A indústria começou a falar com mulheres muito antes de elas aparecerem na mesma proporção. Os dois relógios foram acertados em momentos diferentes, e é o intervalo entre eles que ainda produz ruído.
Perguntas Frequentes
Não há um marco datado desse tipo na documentação pública consultada. O que tem data é a mudança regulatória de 2018, que retirou o recorte de público da categoria, e a evolução medida da representação feminina na literatura de ciência do esporte entre 2014 e 2025. Atribuir a virada a uma campanha específica exigiria uma fonte que este texto não teve.
Não exclui, mas ainda desequilibra. O levantamento mais recente nas três principais revistas da área encontrou 43,95% de participantes mulheres, contra 39% dez anos antes. Estudos exclusivamente masculinos ainda são mais do que o dobro dos exclusivamente femininos.
Porque ele é uma variável de desenho de estudo. Quando não é registrado, não se sabe em que fase do ciclo as medidas foram feitas, e resultados de participantes diferentes podem não ser comparáveis entre si. No levantamento de 2025, 5,6% dos estudos consideraram essa variável na metodologia.
Referências Científicas
[1] BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução da Diretoria Colegiada RDC nº 18, de 27 de abril de 2010. Dispõe sobre alimentos para atletas. Diário Oficial da União, Brasília, 28 abr. 2010, Seção 1, p. 211.
[2] BRASIL. Agência Nacional de Vigilância Sanitária. Resolução da Diretoria Colegiada RDC nº 243, de 26 de julho de 2018. Dispõe sobre os requisitos sanitários dos suplementos alimentares. Diário Oficial da União, Brasília, 27 jul. 2018.
[3] Costello JT, Bieuzen F, Bleakley CM. (2014). Where are all the female participants in Sports and Exercise Medicine research? European Journal of Sport Science, 14(8), 847-851. DOI: 10.1080/17461391.2014.911354
[4] Ose BM, Eisenhauer J, Roepe I, Herda AA, Vopat BG, Vopat LM. (2025). Where Are All the Female Participants in Sports and Exercise Medicine Research? A Decade Later. The American Journal of Sports Medicine, 53(8), 2022-2028. DOI: 10.1177/03635465241278350

