O whey resolve uma parte, e é bom saber qual. Sem poder mastigar, a alimentação migra para sopa, mingau, purê e bebidas. Essa combinação costuma entregar carboidrato e gordura em quantidade razoável e proteína em quantidade baixa. O whey cobre exatamente essa lacuna, em pouco volume e sem exigir mastigação. O que ele não cobre são calorias suficientes, fibra e micronutrientes.
Por que a proteína é o primeiro nutriente a faltar
As fontes proteicas da dieta comum são justamente as que exigem mastigação: carne, frango, peixe, ovo em preparações sólidas. Ao retirá-las, o prato perde proteína antes de perder qualquer outra coisa. Uma sopa de legumes batida com um pouco de macarrão pode ter calorias parecidas com as de uma refeição normal e um terço da proteína.
O momento agrava a conta. Pós-operatório é período de cicatrização, com demanda proteica aumentada exatamente quando a ingestão caiu. Úlcera na boca, dentição comprometida e dor derrubam o que entra pela boca, e a necessidade segue alta [1]. O paralelo com a perda muscular do câncer é de mecanismo, não de gravidade.
O que o whey não resolve, e onde isso importa
Whey é proteína e quase nada além disso. Se a restrição de mastigação vai durar poucos dias, isso basta: a alimentação líquida caseira cobre o resto e o organismo tolera bem um período curto de aporte imperfeito. Se vai durar semanas, o problema deixa de ser proteína e passa a ser dieta completa, e entram as fórmulas nutricionalmente completas. A distinção está em onde a fórmula completa assume, e as vias, em nutrição enteral e oral.
Duas notas práticas que dependem do procedimento. Sucção com canudo é contraindicada em várias cirurgias orais e dentárias, incluindo extrações, por risco de deslocar o coágulo, e isso muda o modo de tomar, não o produto. E temperatura, acidez e textura costumam ter orientação específica no pós-operatório de cada cirurgia. O que serve para um caso pode atrapalhar outro, e essa parte da resposta é de quem operou. A pergunta a levar é quanta proteína está entrando por dia e por quanto tempo a restrição vai durar.
Referências Científicas
[1] Arends J, Bachmann P, Baracos V, Barthelemy N, Bertz H, Bozzetti F, Fearon K, Hütterer E, Isenring E, Kaasa S, Krznaric Z, Laird B, Larsson M, Laviano A, Mühlebach S, Muscaritoli M, Oldervoll L, Ravasco P, Solheim T, Strasser F, de van der Schueren M, Preiser JC. (2017). ESPEN guidelines on nutrition in cancer patients. Clinical Nutrition, 36(1), 11-48. DOI: 10.1016/j.clnu.2016.07.015

